Um dia tudo vai acabar e isso é óbvio, porque o tudo nunca existiu. Aliás, nem o nunca. Remexendo em alguns recortes de textos - guardados do tempo - encontrei um texto de agosto de 2006, de um autor chamado João Pereira Coutinho que escrevia à época na Folha de São Paulo. Me lembro que guardei esse texto porque o achei, realmente, muito bonito e significativo. Hoje o releio, me impressiono com sua beleza e o quanto ele me corresponde (ainda) hoje. Acredito que vocês devam conhecê-lo. Pela beleza.
"(...) com a devida vênia aos sábios, nada (...) invalida meu fascínio aterrador: o dia em que séculos de vida e civilização serão apenas um segundo, ou um suspiro no eterno silêncio do universo. Ter estado, ou não ter estado: apenas uma diferença gramatical. E as obras que fomos acumulando, lendo, vendo, vivendo para nossa beleza e consolação, serão apenas fantasmas sem memória ou sem gente para os recordar. As palavras todas, as imagens todas. Serão como pó mais negro que se espraia pelo vazio como uma onda de esquecimento.
Eu sei que tudó é assim. Não falo do mundo, mas falo de mim. O poeta inglês Philip Larkin, que a crítica culta persiste em desprezar, escreveu há muito o poema definitivo sobre esse confronto pessoal com o nada. Chama-se "Aubade" (1977) e retorno a ele sempre e sempre e sempre. Porque existe nas linhas de Larkin a nitidez absoluta dessa promessa absoluta: o momento em que não iremos ver nada, ouvir nada, sentir nada. A ausência de pensamento, a ausência de qualquer ausência. Não estaremos cá, não estaremos lá, não estaremos em lugar algum. No poema de Larkin, é a manhã, a certeza da manhã que regressa com sua luz tímida, que resgata a angústia pessoal da meditação insone. Temos coisas para fazer. Pessoas com quem estar. Rotinas a cumprir. Barreiras invisíveis com que adiamos a certeza luminosa do fim. Continuamos?
Sim, continuamos. Não tenho respostas, não tenho perguntas. Não tenho conselhos para dar ou vender. E expulso os desesperados como se fossem os vendilhões do meu templo. Sei apenas que o presente é este e que nele habito eu. É pouco? Não. É tudo. Porque o tempo que me resta dispensa todo o resto. E porque a noite que me espera seá sempre parte dos dias que vivi."(O dia em que tudo vai acabar, João Pereira Coutinho, agosto de 2006; jornal Folha de São Paulo)
O que tenho para dizer.Por ora.
Hoje.
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