terça-feira, 21 de julho de 2009

Escrever...pra quê?

“Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto”
Ítalo Calvino

O que me causa estranhamento?
Um insight (ideia fora de hora) que tive e que ainda não consigo responder... O que me causa estranhamento?!?! Eureka!!!O processo de escrita me causa estranhamento. Me incomoda, me choca e, ilogicamente, corresponde às minhas necessidades.
Há muito tempo penso em escrever com dedicação, consciência e disciplina já que acredito que para escrever bem é necessário muito mais de trabalho do que de inspiração. Escrita é trabalho. Há muito me interesso pela escrita ficcional, ainda que pareça mais fácil escrever sobre mim mesmo e aquilo que me acontece cotidianamente. A escrita diária permite que notemos com mais atenção como nossa vida é povoada de fatos inusitados e de atores com personagens interessantes. Somos personagens, vilões e mocinhos, de nossa própria existência. Mas pela dúvida entre escrever ficção ou sobre realidade (e também pela preguiça) nunca escrevi. Quando adolescente, dizia muitas vezes que um dia (não sei quando, até hoje) iria escrever um livro com minhas memórias, uma tentativa que já nasce fracassada de contar como vejo minhas coisas e meu louco tempo.
Esse texto surgiu depois que falei com Sarinha que estava brincando de escrever e ele ofereceu um espacinho em seu blog para que eu me objetivasse...resolvi criar coragem e fazer o meu blog.Ah...objetivasse?!?! Tornasse aquilo que penso um objeto, uma coisa... Que se tornasse real, ainda que no mundo virtual minhas palavras. Palavra-coisa.
O produto da discussão sobre escrever sobre aquilo que é real ou aquilo que é ficcional é expressa de um modo muito interessante e belo num livro que acabo de reler: “Uma vida inventada (memórias trocadas e outras histórias)”, de Maitê Proença (sim...da atriz Maitê Proença que escreve muito bem.Intensa.Lírica.). Um livro interessantíssimo em que não percebemos bem ao certo onde se encerra a realidade e quando ela dá lugar à ficção. Um livro fantástico em que a realidade dialoga com a imaginação e que nos mobiliza a perceber o quanto aquilo que chamamos de real tem de mágica ficcional. O quanto aquilo que vivemos quando contado e exposto no papel se torna uma outra realidade que supera a miséria – não é bem essa a palavra – de nossa dimensão humana. O quanto da realidade esconde de ficção, e vice-versa.
A escrita me causa estranhamento por apontar aquilo que é essencialmente humano.
Às vezes, sinto quase que uma necessidade física, biológica de escrever algo. Humano. De dizer, de gritar, mas para isto é preciso coragem e força para mobilizar-se, libertar-se de amarras (ainda que não-percebidas ou invisíveis). Por que escrever? Ainda não sei. Mas hoje se faz necessário. Urgente.
Cursar Psicologia não me deixa isento de pensar sobre as causas (não falo de etiologia psíquica de patologias) – pelo contrário – e por isso, acredito que há nessa atividade algo de catártico (no sentido leigo do termo). Terapêutico. Um meio de canalização de meus pensamentos que frequentemente assumem caráter de não-linearidade. Sinto necessidade de escrever, de dizer: uma dúvida, um pensamento, uma estória, um fato, um pedido. De me organizar, de dar lógica racional ao que é irracional. A existência. Irracional. Irascível. Enfim. Tentar elucidar algo que ainda não sei bem...discussão profunda e inconclusa com uma linguagem pretensamente profunda,mas fracassada.
Como trilheiro que se embrenha em uma floresta desconhecida, escrevo sem saber muito bem de onde saio; certamente, sem saber onde chegarei; sabendo somente que há um caminho a percorrer. Escrita,caminho escondido que só se revelará ao final.

Ah...pra quem não conhece Ítalo Calvino: autor nascido em Cuba, que viveu toda sua vida na Itália. E leiam Maitê Proença, ela é ótima.

2 comentários:

  1. ô Rudolph, o blog tá muuuito bom! o texto fala tudo! voce descreveu muito bem..adorei! quero ver mais por aqui!

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  2. Que bom te ver enveredando por esses caminhos... escrever é um processo do qual quase nunca saímos ilesos. Mexe, mexe fundo, mas na maioria das vezes compensa os 'efeitos colaterais'. Continue, querido, você comecou muito bem!

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